parla, davi!
o céu tem nuvens mais cinzas do que o concreto da cidade mais podre do mundo. a cada passo que um mendigo dá nessa Terra, maria, tem alguém perdendo a fé, alguma puta procurando quem pare pra ela, alguma alma beijando Deus, algum workaholic bebendo, algum adolescente crackudo morrendo. tem tanta merda acontecendo, maria, tantos monstros em humanos, tanto caos enclausurado em almas pequenas, inseguras e insatisfeitas, tanto medo transbordando lágrimas. maria, o mundo não é mais o mesmo. tem muito mendigo vagando pelas calçadas, tem pouca fé, tem muita puta.
eu voltei a fumar. tem muita gente fumando pelas ruas. nas janelas dos apartamentos e nas dos carros também.
cigarros me lembram você.
— pare de fumar essa bosta, maria, odeio te beijar com esse gosto na boca
— são meus segredos que são podres feito esse maço, meu bem.
você me falou isso com um sorriso de orelha a orelha, como se seus segredos custassem menos que a metade que sobrava do seu maço naquele dia. ajudei a matá-lo. a gente tava numa construção abandonada, na parte suja da cidade, onde tinham seringas jogadas e camisinhas furadas. uma vez, passando por ali contigo, lembro até que tu chutou uma macumba que te fez ganhar um beijo meu por bravura.
eu não acreditava em nada, não entendia deus. eu queria morrer por não saber amar. você me fez sorrir. o mundo tava uma maravilha. você me deu um beijo na testa, disse que logo mais me via, partiu pro rio e eu fiquei nessa são paulo de caos. eu nunca entendi seus segredos. fazem seis anos que não te vejo, maria. na verdade, amanha completam sete.
to no topo da construção abandonada. a cidade não tem mais parte limpa, parte suja, parte nossa, parte deles. ta tudo uma única bosta. e essa bosta toda me faz lembrar os tempos que eu não te conhecia, os tempos que eu não sorria.
eu perdi o sorriso que você me deu, maria.
to fumando em homenagem a ti. já se foram cinco cigarros, to desde manhã aqui sentado, tragando feito um viciado. passei seis anos, quase sete, sem botar uma droga na boca. a última que havia me passado foi você. mas é passado. joguei cada uma das bitucas pra fora do prédio abandonado. doze andares. daqui a pouco acabam meus cigarros. daqui a pouco pego um voo de doze andares. sei lá, maria, ta tudo uma merda e eu não tenho nada a perder desde que te perdi. nada mais ta fazendo sentido, eu nem sei direito porquê que to aqui. mas foda-se isso, não faz diferença. eu ainda te amo e isso me mata. nada mais me resta. meu pulo, dessa vez, não tarda. —j.c.faria
Com o corpo tu vives,
Com a alma tu sentes.
Tu pecas no tato
E choras no peito.
Tu matas com o ego
E nem sentes o cheiro. —J.C.Faria

“só queria te pedir pra nunca partir.
e pra nunca deixar
que eu parta.

a porta
eu deixo aberta.
o cadeado,
prendendo nossos corações.
a chave,
ache-a em nossas almas.

em minhas lágrimas,
a passagem
de volta
pra nossa
casa.

em seus calos,
seus olhos
que guiam o nosso
futuro.

em nosso ritmo,
a história
de infinitos
mimos.

em nós,
o amor.

se você partir,
eu parto
em mil.

se eu partir,
em mil
eu volto
pra ti.”

meu amor, 

esta é uma carta pra você.

J.C.Faria


o que há
de novo
é sempre algo
que se verá
de novo —J.Castro (via chilrear)
em algum dia que eu não sei quando, numa manhã em que, provavelmente, madruguei. [2]
(minha autoria)
em algum dia que eu não sei quando, numa manhã em que, provavelmente, madruguei.
(minha autoria)
Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone, teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem na marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um conta o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor. —Caio F. (via entulhado)
Só tem coca aí na geladeira, Bezerra.

Quinta-feira? Sexta? Segunda? Depois do vício você se esquece de contar os dias, mas lembro que naquele eu jurei para mim que seria a última vez. Também recordo que tomei café de pé, olhando o movimento do bairro pela janela do apartamento, e, assumo a paranoia, vendo se talvez não havia algo estranho. O dia estava quieto demais, estranho demais, eram 10 da manhã e ninguém havia batido na minha porta com alguns reais e desespero nos olhos. Inquieto, dei uma volta pela casa, sentindo na pele o olhar da cerveja me encarando e o cigarro me provocando de cima do criado-mudo. Consegui continuar forte o suficiente para não tocá-los, mas não era forte suficiente pra tudo. Fui em direção à mesa com o intuito de quebrar a promessa e abri a bíblia. Meu papelote tava lá, junto com o cartão e uma nota, marcando uma página que, a priori, achei que era aleatória porque nunca parei pra ler “a palavra de deus”, you know? Nunca me interessou. O único problema é que tinha um trecho grifado:

Gênesis 3:19: “Ao pó retornarás”.

No intervalo de 30 minutos o conto de criação mais difundido no mundo virou o conto da minha destruição. Afinal, que diabos me restava? Até eu mesmo sabia que não deveria confiar em mim. Cheguei a pensar se aquele era o momento de minha completa decadência, mas não acreditava realmente nisso. Só peguei a chave do apartamento e saí. Não havia quebrado a promessa depois de tudo.

Desci as escadas de cabeça baixa, eu me achava uma total perda de tempo e não queria que os outros o perdessem olhando pra minha cara estúpida e sofrida. Cada degrau era um pedaço da eternidade, um solo de rock progressivo, a velocidade parece se alterar nos momentos mais inoportunos, pensei em muita coisa até sair do prédio, desde os clássicos “De onde eu vim?”, “Pra onde eu vou?” até questões atuais mais elaboradas como “A felicidade é algo obtido tão facilmente por meio de drogas, por que damos tanto valor?”. Aqueles eram tempos difíceis para sorrir, o espelho gritava demais e a mente respondia mais alto ainda. Quando finalmente saí, senti como se cruzasse uma linha de chegada. Fiquei aliviado quando me vi cercado por dezenas de pessoas. Eu era novamente só mais um.

Deus, era tão bom saber que estava acima daquela competição rumo ao grande-sucesso-fama-dinheiro-tv-de-42” que fazia quase todos os seres humanos andarem em círculos até o último minuto de vida. Mesmo sabendo que a maioria me via como um vagabundo, eu me sentia muito melhor do que qualquer um naquela cidade. Eu era o rei das minhas merdas, um pássaro solto que cantava numa selva de gaiolas. Estava acima deles e abaixo deles, como um Rei desconhecido visitando outro país. Não me importava mais em ser uma perda de tempo, afinal, tudo ao meu redor era. Eu era, o garçom era, a puta da Augusta era, Bill Gates e o hippie que mora na praça perto do meu prédio eram. Fui pro bar.

Escutava a música ao vivo antes de entrar: Há tempos, de Legião. O destino estava me fodendo pelas beiradas. Só consegui soltar um sorriso quando coloquei o pé dentro e percebi que o lugar de repente virou um deserto, do jeito que eu gostava. Tinha desistido de bares cheios já fazia um tempo, as pessoas ao redor me pareciam estúpidas… Ou talvez felizes demais. Chamei o garçom, pedi uma dose de cachaça e uma cerveja. Perguntei o porquê do lugar estar tão vazio, ele respondeu que era o feriado. Entendi finalmente o motivo de ninguém ter batido à minha porta e, mesmo parecendo sádico, senti saudade do desespero dos outros. Talvez porque eram eles que pagavam meu aluguel… Mas, naquele feriado, eu tava fodido e sem dinheiro. Respirei fundo e virei a cachaça. Uma mulher entrou no bar enquanto Renato Russo cantava “Parece cocaína…” e eu respondia “Quem dera fosse”.

Kalil F.

e quando ela ri

quando ela ri
eu tenho vontade de chorar

só de mim

chorem

porque essa porra foi feita pra deixar qualquer um sentimental pra caralho, nem que seja só pela música de fundo.