
“só queria te pedir pra nunca partir.
e pra nunca deixar
que eu parta.
a porta
eu deixo aberta.
o cadeado,
prendendo nossos corações.
a chave,
ache-a em nossas almas.
em minhas lágrimas,
a passagem
de volta
pra nossa
casa.
em seus calos,
seus olhos
que guiam o nosso
futuro.
em nosso ritmo,
a história
de infinitos
mimos.
em nós,
o amor.
se você partir,
eu parto
em mil.
se eu partir,
em mil
eu volto
pra ti.”
meu amor,
esta é uma carta pra você.
J.C.Faria
Quinta-feira? Sexta? Segunda? Depois do vício você se esquece de contar os dias, mas lembro que naquele eu jurei para mim que seria a última vez. Também recordo que tomei café de pé, olhando o movimento do bairro pela janela do apartamento, e, assumo a paranoia, vendo se talvez não havia algo estranho. O dia estava quieto demais, estranho demais, eram 10 da manhã e ninguém havia batido na minha porta com alguns reais e desespero nos olhos. Inquieto, dei uma volta pela casa, sentindo na pele o olhar da cerveja me encarando e o cigarro me provocando de cima do criado-mudo. Consegui continuar forte o suficiente para não tocá-los, mas não era forte suficiente pra tudo. Fui em direção à mesa com o intuito de quebrar a promessa e abri a bíblia. Meu papelote tava lá, junto com o cartão e uma nota, marcando uma página que, a priori, achei que era aleatória porque nunca parei pra ler “a palavra de deus”, you know? Nunca me interessou. O único problema é que tinha um trecho grifado:
Gênesis 3:19: “Ao pó retornarás”.
No intervalo de 30 minutos o conto de criação mais difundido no mundo virou o conto da minha destruição. Afinal, que diabos me restava? Até eu mesmo sabia que não deveria confiar em mim. Cheguei a pensar se aquele era o momento de minha completa decadência, mas não acreditava realmente nisso. Só peguei a chave do apartamento e saí. Não havia quebrado a promessa depois de tudo.
Desci as escadas de cabeça baixa, eu me achava uma total perda de tempo e não queria que os outros o perdessem olhando pra minha cara estúpida e sofrida. Cada degrau era um pedaço da eternidade, um solo de rock progressivo, a velocidade parece se alterar nos momentos mais inoportunos, pensei em muita coisa até sair do prédio, desde os clássicos “De onde eu vim?”, “Pra onde eu vou?” até questões atuais mais elaboradas como “A felicidade é algo obtido tão facilmente por meio de drogas, por que damos tanto valor?”. Aqueles eram tempos difíceis para sorrir, o espelho gritava demais e a mente respondia mais alto ainda. Quando finalmente saí, senti como se cruzasse uma linha de chegada. Fiquei aliviado quando me vi cercado por dezenas de pessoas. Eu era novamente só mais um.
Deus, era tão bom saber que estava acima daquela competição rumo ao grande-sucesso-fama-dinheiro-tv-de-42” que fazia quase todos os seres humanos andarem em círculos até o último minuto de vida. Mesmo sabendo que a maioria me via como um vagabundo, eu me sentia muito melhor do que qualquer um naquela cidade. Eu era o rei das minhas merdas, um pássaro solto que cantava numa selva de gaiolas. Estava acima deles e abaixo deles, como um Rei desconhecido visitando outro país. Não me importava mais em ser uma perda de tempo, afinal, tudo ao meu redor era. Eu era, o garçom era, a puta da Augusta era, Bill Gates e o hippie que mora na praça perto do meu prédio eram. Fui pro bar.
Escutava a música ao vivo antes de entrar: Há tempos, de Legião. O destino estava me fodendo pelas beiradas. Só consegui soltar um sorriso quando coloquei o pé dentro e percebi que o lugar de repente virou um deserto, do jeito que eu gostava. Tinha desistido de bares cheios já fazia um tempo, as pessoas ao redor me pareciam estúpidas… Ou talvez felizes demais. Chamei o garçom, pedi uma dose de cachaça e uma cerveja. Perguntei o porquê do lugar estar tão vazio, ele respondeu que era o feriado. Entendi finalmente o motivo de ninguém ter batido à minha porta e, mesmo parecendo sádico, senti saudade do desespero dos outros. Talvez porque eram eles que pagavam meu aluguel… Mas, naquele feriado, eu tava fodido e sem dinheiro. Respirei fundo e virei a cachaça. Uma mulher entrou no bar enquanto Renato Russo cantava “Parece cocaína…” e eu respondia “Quem dera fosse”.
Kalil F.